Tuesday, June 28, 2005

Fazer versos

Muitos nunca entenderão
o fazer versos. Acham um passatempo
e insensatez perversa.
Contemplo-os à noite, do terraço
que dá para a solidão de seus quartos.
Dormem todos. Mas há luzes acesas.
Devem ser poetas que desconheço
e me desconhecem, e alta noite reconstroem,
mudos, um diálogo de muitos,
como se nunca fossem morrer.

Os outros dormem. Dormem
imaginando, às vezes, como o artista há de ser.
O artista, apenas, arde o ser.

(Affonso Romano de Sant'Anna)

Monday, June 27, 2005

Presente

O que te dar neste dia?
O que te daria eu ontem
quando não te conhecia?
E amanhã, o que darei
se hoje não te dei
o que devia?

O que te dou é apenas
sombra do que querias.
Dou-te prosa, e o desejo
era dar-te poesia.

(Affonso Romano de Sant'Anna)

Sunday, June 26, 2005

O que será que Manuel Bandeira pensava ?

Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo
Quero apenas contar-te a minha ternura
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás
Eu te pudesse repor
- Eu soubesse repor -
No coração despedaçado
As mais puras alegrias de tua infância!

(Manuel Bandeira - Libertinagem)

Wednesday, June 22, 2005

Flores têm cheiro de realidade

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos.
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

(Alberto Caeiro - Fernando Pessoa)

O dia e a noite

Como hei de restaurar-me na bonança
Se órfão da graça do repouso vi-me,
Pois a opressão do dia a noite alcança,
Da noite o dia, e dia e noite oprime;
Que ambos, embora em natureza opostos,
Deram-se as mãos para me dar tortura:
Um dá-me a dura pena, outro desgostos,
Que este penar longe de ti mais dura.
Digo que és luz para agradar ao dia,
E, se há nuvens, que podes removê-las;
Louvo também da noite a tez sombria:
Douras o céu se não houver estrelas.
Mas cada dia, o dia a dor aumenta
E cada noite, a noite inda a acrescenta.

Shakespeare

Tuesday, June 21, 2005

Flores sem nome

Estou amando essas flores, sem lhes saber o nome.
Isto não é justo, nem suficiente.
Sei-lhes o perfume,
vejo pequenas abelhas que as circundam
e delas se alimentam
sem lhes indagar sequer o nome.
Inominadas,
como aprendê-las no poema?
Delas guardarei no tempo
certa cor, certo poema, certa forma,
como certas pessoas que por mim passam
- inalcançáveis -
embora deixassem nos meus olhos
o mesmo inominado aroma.

(Affonso Romano de Sant'Anna)

Monday, June 20, 2005

Jornada

Lanço-me ao leito, exausto da fadiga,
Repousa o corpo ao fim da jornada;
Mas eis que a outra jornada a mente obriga
Quando é do corpo a obrigação passada.
A ti meu pensamento - na distância -
Em santa romaria então me leva,
E fico, as frouxas pálpebras em ânsia,
Olhando, como os cegos vêem na treva.
E a vista de minh'alma ali desvenda
Aos olhos sem visão tua figura,
Que igual a jóia erguida em noite horrenda,
Renova a velha face à noite escura.
Ai! que de dia o corpo, à noite a alma,
Por tua e minha culpa têm calma.

(William Shakespeare)

Saturday, June 18, 2005

A Poesia perdida

Quantas vezes, alta noite,
a alma rota de insônias,
me fustigavas, poesia.

Eu, olho cerrado,
noturno feto, fingindo
não ser comigo que falavas.

Falavas, e eu disfarçava
(amanhã te beijo, escrevo, acaricio).
Exausta, te afastavas.
Exausto, adormecia.

No meio da noite
algo se perdia
Não era muito
- só poesia

(Affonso Romano de Sant'Anna)

Friday, June 17, 2005

Não é posível medir a posição e a velocidade do elétron simultâneamente

Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
Do que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.

Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso, quando pareço não concordar comigo,
Reparem bem para mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés -
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma.

(Fernando Pessoa - Alberto Caeiro)

Monday, June 13, 2005

Tempo, sonhos, sombras...

Ausente andei de ti na primavera
Quando o festivo Abril mais se atavia,
E em tudo um'alma juvenil pusera
Que até Saturno saltitava e ria.
Mas nem gorjeios d'aves, nem fragrância
de flores várias em matiz e odores,
Moveram-me a compor alegre estância
Ou a colher, do seio altivo, as flores.
Nem me tocou a palidez do lírio,
Nem celebrei o vermelhão da rosa;
Eram não mais que imagens de um empíreo
Calcado em ti, padrão de toda cousa.
Inverno pareceu-me aquela alfombra,
E me pus a brincar com tua sombra.

(William Shakespeare)

Saturday, June 11, 2005

Tempo imperfeito

Quando observo que tudo quanto cresce
Desfruta a perfeição de um só momento,
Que neste palco imenso se obedece
A secreta influição do firmamento;
Quando percebo que ao homem, como à planta,
Esmaga o mesmo céu que lhe deu glória,
Que se ergue em seiva e, no ápice, aquebranta
E um dia enfim se apaga da memória:
esse conceito da inconstante sina
Mais jovem faz-te ao meu olhar agora,
Quando o Tempo se alia com a Ruína
Para tornar em noite a tua aurora.
E crua guerra contra o Tempo enfrento,
Pois tudo que te toma eu te acrescento.

(William Shakespeare)

Espelho e Fluxo de cristal

Minha alma é esse lago... (Charles Augustin De Sainte-Beuve)

Minha alma é esse lago em que o sol, que declina
Numa tarde outoniça e linda, arde, expirando:
a onda pouco freme, e nem a asa argentina,
Nem o longínquo remo o agita, resvalando.
Tudo descansa em paz, e o cristal transparente,
À noite, ao esfriar no vento enregelado,
Sem rugas, eco, sem lamentações plangentes,
Parece espelho feito aos pálidos enfados.
Mas não sentis, Senhora, em tal tranqüilidade,
No fluxo de cristal pelo próprio esquecido,
Nessa calma extensão de plena fixidade,
Seu gozo em vos ficar aos pés emudecido,
Em refletir em paz a bem-amada margem,
Em pintá-la mais pura, e sem se entremeter,
em nada em si perder da divinal imagem
Daquela cujo rastro está sempre a colher?

Luar

Vossa alma é paisagem escolhida
Que encantam bergamascos com folia,
Laúde, dança e quase entristecida
Máscara, em fantasiosas fantasias.

No modo menor, cantam a harmonia
Do vitorioso amor, da azada vida,
Porém, não se convencem da alegria,
E é no luar a música envolvida,

No luar calmo, triste, mas formoso
Que dá sonhos aos pássaros das árvores,
E mais suspiros de êxtase aos grandiosos
Jatos d'água, elegantes, entre os mármores.

(Paul Verlaine)

Sunday, June 05, 2005

Onda do mar

A um ausente (Carlos Drummond de Andrade)

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
E sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.

O mistério do olhar

Eu (Paulo Leminsky)

eu
quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora

quem está por fora
não segura
um olhar que demora

de dentro de meu centro
este poema me olha

Saturday, June 04, 2005

Atemporal

POESIA ( Carlos Drummond de Andrade)

Gastei uma hora pensando em um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.