Wednesday, August 16, 2023
Tuesday, August 15, 2023
Wednesday, July 12, 2006
Predomínio do Sentido Interior
Era eu um poeta estimulado pela filosofia e não um filósofo com faculdades poéticas. Gostava de admirar a beleza das coisas, descobrir no imperceptível, através do diminuto, a alma poética do universo.
A poesia da terra nunca morre. Podemos dizer que as eras passadas foram mais poéticas, mas não podemos dizer(...)
A poesia encontra-se em todas as coisas - na terra e no mar, no lago e na margem do rio. Encontra-se também na cidade - não o neguemos - é evidente para mim, aqui, enquanto estou sentado, há poesia nesta mesa, neste papel, neste tinteiro; há poesia no barulho dos carros nas ruas, em cada movimento diminuto, comum, ridículo, de um oeprário, que do outro lado da rua está pintando a tabuleta de um açougue.
Meu senso íntimo predomina de tal maneira sobre meus cinco sentidos que vejo coisas nesta vida - acredito-o - de modo diferente de outros homens. Há para mim - havia - um tesouro de significado numa coisa tão ridícula como uma chave, um prego na parede, os bigodes de um gato. Há para mim uma plenitude de sugestão espiritual em uma galinha com seus pintinhos, atravessando a rua, com ar pomposo. Há para mim um siginificado mais profundo do que as lágrimas humanas no aroma do sândalo nas velhas latas num monturo, numa caixa de fósforos caída na sarjeta, em dois papéis sujos que, num dia de ventania, rolarão e se perseguirão rua abaixo.
Fernando Pessoa(em o "Eu Profundo")
A poesia da terra nunca morre. Podemos dizer que as eras passadas foram mais poéticas, mas não podemos dizer(...)
A poesia encontra-se em todas as coisas - na terra e no mar, no lago e na margem do rio. Encontra-se também na cidade - não o neguemos - é evidente para mim, aqui, enquanto estou sentado, há poesia nesta mesa, neste papel, neste tinteiro; há poesia no barulho dos carros nas ruas, em cada movimento diminuto, comum, ridículo, de um oeprário, que do outro lado da rua está pintando a tabuleta de um açougue.
Meu senso íntimo predomina de tal maneira sobre meus cinco sentidos que vejo coisas nesta vida - acredito-o - de modo diferente de outros homens. Há para mim - havia - um tesouro de significado numa coisa tão ridícula como uma chave, um prego na parede, os bigodes de um gato. Há para mim uma plenitude de sugestão espiritual em uma galinha com seus pintinhos, atravessando a rua, com ar pomposo. Há para mim um siginificado mais profundo do que as lágrimas humanas no aroma do sândalo nas velhas latas num monturo, numa caixa de fósforos caída na sarjeta, em dois papéis sujos que, num dia de ventania, rolarão e se perseguirão rua abaixo.
Fernando Pessoa(em o "Eu Profundo")
Monday, April 10, 2006
Science-fiction I
Talvez o nosso mundo se convexe
Na matriz positiva doutra esfera.
Talvez no interspaço que medeia
Se permutem secretas migrações.
Talvez a cotovia, quando sobe,
Outros ninhos procure, ou outro sol.
Talvez a cerva branca do meu sonho
Do côncavo rebanho se perdesse.
Talvez do eco dum distante canto
Nascesse a poesia que fazemos.
Talvez só amor seja o que temos,
Talvez a nossa coroa, o nosso manto.
José Saramago
Na matriz positiva doutra esfera.
Talvez no interspaço que medeia
Se permutem secretas migrações.
Talvez a cotovia, quando sobe,
Outros ninhos procure, ou outro sol.
Talvez a cerva branca do meu sonho
Do côncavo rebanho se perdesse.
Talvez do eco dum distante canto
Nascesse a poesia que fazemos.
Talvez só amor seja o que temos,
Talvez a nossa coroa, o nosso manto.
José Saramago
Wednesday, March 15, 2006
Análise
Tão abstrata é a idéia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.
Fernando Pessoa
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.
Fernando Pessoa
Friday, January 20, 2006
Mar Português
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Fernando Pessoa
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Fernando Pessoa
Friday, January 13, 2006
É isso ai, como a gente achou que ia ser...
"O amor que move o sol, como as estrelas."
O verso de Dante
é uma verdade resplandecente,
e curvo-me ante a sua magnitude.
Ouso insinuar,
sem pretensão a contribuir
para que se desvende o mistério amoroso:
Amar se aprende amando
Sem omitir o real cotidiano,
também matéria de poesia.
Carlos Drummond de Andrade
O verso de Dante
é uma verdade resplandecente,
e curvo-me ante a sua magnitude.
Ouso insinuar,
sem pretensão a contribuir
para que se desvende o mistério amoroso:
Amar se aprende amando
Sem omitir o real cotidiano,
também matéria de poesia.
Carlos Drummond de Andrade
Wednesday, October 05, 2005
De profundis
À noite encontrei-me num pântano,
Pleno de lixo e pó das estrelas.
Na avelãzeira
Soaram de novo anjos cristalinos.
Georg Trakl
Pleno de lixo e pó das estrelas.
Na avelãzeira
Soaram de novo anjos cristalinos.
Georg Trakl
Tuesday, October 04, 2005
A pantera
De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.
A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.
De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.
Rainer Maria Rilke
esmoreceu e nada mais aferra.
como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.
A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.
De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.
Rainer Maria Rilke
Tuesday, September 06, 2005
Entangled dreams
Conquanto fora a tarde ainda infinda
e nem vestira a noite a roupa sombria
um anjo da treva em silêncio se via
e suas plumas eram trapos. Ainda
que a tarde fluísse erma e vadia
e comigo apenas o tempo caminhasse
gotejando em cada passo que eu andasse
dissolvendo cada coisa que eu vivia
aquele anjo impedia que eu parasse.
Repentino, e sua voz me dava medo,
era eu, falou o anjo, um mero enredo:
me sonhava e eu morreria se o acordasse.
O que eu via era um sonho atado ao seu,
a mulher que me amava, e era amada,
era coisa em sua mente inventada,
tudo sonho, que ademais nem era meu.
Encarei solenemente aquela face
que eu sonhava e que afirmava me sonhar;
pra vencê-la me bastava despertar
demonstrando cabalmente quem sonhasse.
Acordei e foi-se o anjo andrajado
que dizia que seu sonho era eu,
que eu sonhava mas meu sonho era seu,
que meu sonho por ele era sonhado.
Foi-se a tarde, mas a noite não nasceu.
Num orbe velado, ausente do espaço,
extinto o tempo - cessado o seu passo -
revi o anjo esconso, só ele, e era eu.
Anônimo(mural x de uma sala y do ICEX-UFMG)
e nem vestira a noite a roupa sombria
um anjo da treva em silêncio se via
e suas plumas eram trapos. Ainda
que a tarde fluísse erma e vadia
e comigo apenas o tempo caminhasse
gotejando em cada passo que eu andasse
dissolvendo cada coisa que eu vivia
aquele anjo impedia que eu parasse.
Repentino, e sua voz me dava medo,
era eu, falou o anjo, um mero enredo:
me sonhava e eu morreria se o acordasse.
O que eu via era um sonho atado ao seu,
a mulher que me amava, e era amada,
era coisa em sua mente inventada,
tudo sonho, que ademais nem era meu.
Encarei solenemente aquela face
que eu sonhava e que afirmava me sonhar;
pra vencê-la me bastava despertar
demonstrando cabalmente quem sonhasse.
Acordei e foi-se o anjo andrajado
que dizia que seu sonho era eu,
que eu sonhava mas meu sonho era seu,
que meu sonho por ele era sonhado.
Foi-se a tarde, mas a noite não nasceu.
Num orbe velado, ausente do espaço,
extinto o tempo - cessado o seu passo -
revi o anjo esconso, só ele, e era eu.
Anônimo(mural x de uma sala y do ICEX-UFMG)
Thursday, September 01, 2005
Poema alternativo 1: A Garota das Laranjas
What’s in a Name
My life was simple, and I wanted something more
Then I caught her emerald eyes from across the dance floor.
Was she just another girl, or could I believe the hype
Cause she was tall, tan, and beautiful, just my type
She represented all the things, that never could be mine
But I would have her love, if she just gave me the time
I asked her what’s your name, and she flashed a smile
She said not yet, you’ll have to wait a little while
I led her to the floor, and we began to dance
I was lost in her eyes, like Shakespearian romance
I held her in my arms, it was heavenly bliss
And we began our affair with our very first kiss
She looked into my eyes down into my soul
She was everything I needed, a heavenly angel
We walked outside, hand in hand
It was walking on water, over pearl colored sand
We walked by a garden, and I picked her a flower
Such a perfect gift in this magic midnight hour
It was ever so perfect that the angels sung aloud
The heavens parted ways as the moon shown through the clouds
Under the stars, we became best friends
And there was no way, I wanted this night to end
We talked all night and my heart was at ease
Then it got a little chilly, from a cool fall breeze
We went to my house, it was a dream come true
And I fell a sleep to her I love you
I knew everything about her except for her name
Could this really be love or was I going insane
I awoke the next day with the sun on my face
I looked all around, but finding no trace
I closed my eyes tight, it just wasn’t fair
Was it all just a dream or was this a nightmare
I opened them again just hoping to see
Her beautiful green eyes looking back at me
There was no one there, so I reached for the remote
And I felt a piece of paper; she’d left me a note
“I had to leave early, I hope that wasn’t mean
But I’ve left you my number, and my name is Christine”
Matthew
My life was simple, and I wanted something more
Then I caught her emerald eyes from across the dance floor.
Was she just another girl, or could I believe the hype
Cause she was tall, tan, and beautiful, just my type
She represented all the things, that never could be mine
But I would have her love, if she just gave me the time
I asked her what’s your name, and she flashed a smile
She said not yet, you’ll have to wait a little while
I led her to the floor, and we began to dance
I was lost in her eyes, like Shakespearian romance
I held her in my arms, it was heavenly bliss
And we began our affair with our very first kiss
She looked into my eyes down into my soul
She was everything I needed, a heavenly angel
We walked outside, hand in hand
It was walking on water, over pearl colored sand
We walked by a garden, and I picked her a flower
Such a perfect gift in this magic midnight hour
It was ever so perfect that the angels sung aloud
The heavens parted ways as the moon shown through the clouds
Under the stars, we became best friends
And there was no way, I wanted this night to end
We talked all night and my heart was at ease
Then it got a little chilly, from a cool fall breeze
We went to my house, it was a dream come true
And I fell a sleep to her I love you
I knew everything about her except for her name
Could this really be love or was I going insane
I awoke the next day with the sun on my face
I looked all around, but finding no trace
I closed my eyes tight, it just wasn’t fair
Was it all just a dream or was this a nightmare
I opened them again just hoping to see
Her beautiful green eyes looking back at me
There was no one there, so I reached for the remote
And I felt a piece of paper; she’d left me a note
“I had to leave early, I hope that wasn’t mean
But I’ve left you my number, and my name is Christine”
Matthew
Wednesday, August 31, 2005
De terras dinamarquesas...
"Quem não vive agora, não vive nunca. O que você está fazendo?" Piet Hein
(pág. 50 de um belíssimo livro).
Presence of mind - Piet Hein
You'll conquer the present
suspiciously fast
if you smell of the future
- and stink of the past.
Wanting to be able to - Piet Hein
'Impossibilities' are good
not to attach that label to;
since, correctly understood,
if we wanted to, we would
be able to be able to
(pág. 50 de um belíssimo livro).
Presence of mind - Piet Hein
You'll conquer the present
suspiciously fast
if you smell of the future
- and stink of the past.
Wanting to be able to - Piet Hein
'Impossibilities' are good
not to attach that label to;
since, correctly understood,
if we wanted to, we would
be able to be able to
Friday, August 26, 2005
O Grande Momento
Inicia-te, enfim, Alma imprevista,
Entra no seio dos Iniciados.
Esperam-te de luz maravilhados
Os Dons que vão te consagrar Artista.
Toda uma Esfera te deslumbra a vista,
Os ativos sentidos requintados.
Céus e mais céus e céus transfigurados
Abrem-te as portas da imortal Conquista.
Eis o grande Momento prodigioso
Para entrares sereno e majestoso
Num mundo estranho de esplendor sidéreo.
Borboleta de sol, surge da lesma...
Oh! vai, entra na posse de ti mesma,
Quebra os selos augustos do Mistério!
Cruz & Souza
Entra no seio dos Iniciados.
Esperam-te de luz maravilhados
Os Dons que vão te consagrar Artista.
Toda uma Esfera te deslumbra a vista,
Os ativos sentidos requintados.
Céus e mais céus e céus transfigurados
Abrem-te as portas da imortal Conquista.
Eis o grande Momento prodigioso
Para entrares sereno e majestoso
Num mundo estranho de esplendor sidéreo.
Borboleta de sol, surge da lesma...
Oh! vai, entra na posse de ti mesma,
Quebra os selos augustos do Mistério!
Cruz & Souza
Saturday, August 20, 2005
Ao amor antigo
O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do Destino vão, nega a sentença.
O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.
Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.
Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não, ele vençeu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.
Carlos Drummond de Andrade
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do Destino vão, nega a sentença.
O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.
Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.
Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não, ele vençeu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.
Carlos Drummond de Andrade
Wednesday, August 10, 2005
A uma passante
A rua em derredor era um ruído incomum,
Longa, magra, de luto e na dor majestosa,
Uma mulher passou e com a mão faustosa
Erguendo, balançando o festão e o debrum;
Nobre e ágil, tendo a perna assim de estátua exata.
Eu bebia perdido em minha crispação
No seu olhar, céu que germina o furacão,
A doçura que embala e o frenesi que mata.
Um relâmpago, e após a noite! Aérea beldade,
E cujo olhar me fez renascer de repente,
Só te verei um dia e já na eternidade?
Bem longe, tarde, além, jamais provavelmente!
Não sabes aonde vou, eu não sei aonde vais,
Tu que eu teria amado - e o sabias demais!
Charles Baudelaire
Longa, magra, de luto e na dor majestosa,
Uma mulher passou e com a mão faustosa
Erguendo, balançando o festão e o debrum;
Nobre e ágil, tendo a perna assim de estátua exata.
Eu bebia perdido em minha crispação
No seu olhar, céu que germina o furacão,
A doçura que embala e o frenesi que mata.
Um relâmpago, e após a noite! Aérea beldade,
E cujo olhar me fez renascer de repente,
Só te verei um dia e já na eternidade?
Bem longe, tarde, além, jamais provavelmente!
Não sabes aonde vou, eu não sei aonde vais,
Tu que eu teria amado - e o sabias demais!
Charles Baudelaire
Friday, August 05, 2005
O albatroz
Às vezes, em recreio, os homens da equipagem
pegam um albatroz, enorme ave marinha
que segue, companheiro indolente de viagem,
o navio que sobre o atro abismo caminha.
Mal no convés se vê, todo desconjuntado,
logo esse rei do azul, em passos desiguais,
como dois remos, põe-se a arrastar a seu lado,
desajeitadamente, as asas colossais.
Esse alado viajor, como é grotesco andando!
Ei-lo horrível e inerme, ele que antes pairava!
Um chega-lhe o cachimbo ao bico, e outro, coxeando,
arremeda no andar o pobre que voava!
O poeta é o albatroz que nas nuvens se espraia,
que ri dos vendavais e afronta as setas, no ar;
exilado no solo, em meio ao riso e à vaia,
suas asas de gigante impedem-no de andar.
Charles Baudelaire
pegam um albatroz, enorme ave marinha
que segue, companheiro indolente de viagem,
o navio que sobre o atro abismo caminha.
Mal no convés se vê, todo desconjuntado,
logo esse rei do azul, em passos desiguais,
como dois remos, põe-se a arrastar a seu lado,
desajeitadamente, as asas colossais.
Esse alado viajor, como é grotesco andando!
Ei-lo horrível e inerme, ele que antes pairava!
Um chega-lhe o cachimbo ao bico, e outro, coxeando,
arremeda no andar o pobre que voava!
O poeta é o albatroz que nas nuvens se espraia,
que ri dos vendavais e afronta as setas, no ar;
exilado no solo, em meio ao riso e à vaia,
suas asas de gigante impedem-no de andar.
Charles Baudelaire
Monday, July 25, 2005
Férias é doce...
Música Misteriosa
Tenda de Estrelas níveas, refulgentes,
Que abris a doce luz de alampadários,
As harmonias dos Estradivarius
Erram da lua nos clarões dormentes...
Pelos raios fluídicos, diluentes
Dos Astros, pelos trêmulos velários,
Cantam sonhos de místicos templários,
De ermitões e de ascetas reverentes...
Cânticos vagos, infinitos, aéreos
Fluir parecem dos Azuis etéreos,
Dentre os nevoeiros do luar fluindo...
E vai, de Estrela a Estrela, a luz da Lua,
Na láctea claridade que flutua,
A surdina das lágrimas subindo...
Cruz & Souza
Tenda de Estrelas níveas, refulgentes,
Que abris a doce luz de alampadários,
As harmonias dos Estradivarius
Erram da lua nos clarões dormentes...
Pelos raios fluídicos, diluentes
Dos Astros, pelos trêmulos velários,
Cantam sonhos de místicos templários,
De ermitões e de ascetas reverentes...
Cânticos vagos, infinitos, aéreos
Fluir parecem dos Azuis etéreos,
Dentre os nevoeiros do luar fluindo...
E vai, de Estrela a Estrela, a luz da Lua,
Na láctea claridade que flutua,
A surdina das lágrimas subindo...
Cruz & Souza
Por dentro
Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Como que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.
Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.
Fernando Pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Como que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.
Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.
Fernando Pessoa
Sunday, July 24, 2005
Eros e psique
Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esqueçida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe, o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino -
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.
E, inda tonto do que houvera,
A cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era,
A Princesa que dormia.
Fernando Pessoa
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esqueçida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe, o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino -
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.
E, inda tonto do que houvera,
A cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era,
A Princesa que dormia.
Fernando Pessoa
Saturday, July 23, 2005
Opaco
Noite. Certo
muitos são os astros.
Mas o edifício
barra-me a vista.
Quis interpretá-lo.
Valeu? Hoje
barra-me (há luar) a vista.
Nada escrito no céu,
sei.
Mas queria vê-lo.
O edifício barra-me
a vista.
Zumbido
de besouro. Motor
arfando. O edifício barra-me
a vista.
Assim ao luar é mais humilde.
Por ele é que sei do luar.
Não, não me barra
a vista. A vista se barra
a si mesma.
Carlos Drummond de Andrade
muitos são os astros.
Mas o edifício
barra-me a vista.
Quis interpretá-lo.
Valeu? Hoje
barra-me (há luar) a vista.
Nada escrito no céu,
sei.
Mas queria vê-lo.
O edifício barra-me
a vista.
Zumbido
de besouro. Motor
arfando. O edifício barra-me
a vista.
Assim ao luar é mais humilde.
Por ele é que sei do luar.
Não, não me barra
a vista. A vista se barra
a si mesma.
Carlos Drummond de Andrade
Friday, July 22, 2005
Dizem?
Dizem?
Esqueçem.
Não dizem?
Disseram.
Fazem?
Fatal.
Não fazem?
Igual. Por quê
Esperar?
Tudo é
Sonhar.
Fernando Pessoa
Esqueçem.
Não dizem?
Disseram.
Fazem?
Fatal.
Não fazem?
Igual. Por quê
Esperar?
Tudo é
Sonhar.
Fernando Pessoa
Montanha
Como se moço e não bem velho eu fosse,
Uma nova ilusão veio animar-me,
Na minh'alma floriu um novo carme,
O meu ser para o céu alcandorou-se.
Ouvi gritos em mim como um alarme.
E o meu olhar, outrora suave e doce,
Nas ânsias de escalar o azul tornou-se
Todo em raios, que viam desolar-me.
Vi-me no cimo eterno da montanha
Tentando unir ao peito a luz dos círios
Que brilhavam na paz da noite estranha.
Acordei do áureo sonho em sobressalto;
Do céu tombei ao caos dos meus martírios,
Sem saber para que subi tão alto...
Alphonsus de Guimarães
Uma nova ilusão veio animar-me,
Na minh'alma floriu um novo carme,
O meu ser para o céu alcandorou-se.
Ouvi gritos em mim como um alarme.
E o meu olhar, outrora suave e doce,
Nas ânsias de escalar o azul tornou-se
Todo em raios, que viam desolar-me.
Vi-me no cimo eterno da montanha
Tentando unir ao peito a luz dos círios
Que brilhavam na paz da noite estranha.
Acordei do áureo sonho em sobressalto;
Do céu tombei ao caos dos meus martírios,
Sem saber para que subi tão alto...
Alphonsus de Guimarães
Thursday, July 21, 2005
A Máquina do Mundo
Este poema foi escolhido com o o melhor poema brasileiro de todos os tempos por um grupo significativo de escritores e críticos, a pedido do caderno "MAIS"(edição de 02/01/2000), publicado aos domingos pelo jornal Folha de São Paulo.
Livro: Claro Enigma - Carlos Drummond de Andrade
Parte X: A Máquina do Mundo
- Poema 1: O Relógio do Rosário
- Poema 2: A Máquina do Mundo
A Máquina do Mundo
E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,
a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.
Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável
pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar
toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.
Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera
e nem desejaria recobrá-los
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,
convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,
assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atentasse que alguém, sobre a montanha.
a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de
teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo
e a cada instante mais se retraindo,
olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,
essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo
se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo."
As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge
distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos
e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber
no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar
na estranha ordem geométrica de tudo,
e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade;
e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,
tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.
Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e memo o anseio,
a esperança mais mínima - esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;
como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face
que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,
passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticente
em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,
baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.
A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,
se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.
Carlos Drummond de Andrade (1951)
Livro: Claro Enigma - Carlos Drummond de Andrade
Parte X: A Máquina do Mundo
- Poema 1: O Relógio do Rosário
- Poema 2: A Máquina do Mundo
A Máquina do Mundo
E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,
a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.
Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável
pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar
toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.
Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera
e nem desejaria recobrá-los
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,
convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,
assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atentasse que alguém, sobre a montanha.
a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de
teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo
e a cada instante mais se retraindo,
olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,
essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo
se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo."
As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge
distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos
e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber
no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar
na estranha ordem geométrica de tudo,
e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade;
e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,
tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.
Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e memo o anseio,
a esperança mais mínima - esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;
como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face
que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,
passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticente
em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,
baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.
A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,
se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.
Carlos Drummond de Andrade (1951)
Wednesday, July 20, 2005
Entre o Sono e o Sonho
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.
Passou por várias margens,
diversas mais além
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.
Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.
E quem me sinto, e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre
Esse rio sem fim.
Fernando Pessoa
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.
Passou por várias margens,
diversas mais além
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.
Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.
E quem me sinto, e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre
Esse rio sem fim.
Fernando Pessoa
Tuesday, July 19, 2005
Cara e Coroa: 2 Faces da mesma Moeda
Poética
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelo de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare
- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
Manuel Bandeira
--------M-E-M-B-R-A-N-A-S-E-M-I-P-E-R-M-E-Á-V-E-L-------
A um Poeta
Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!
Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo que a imagem fique nua
Rica mas sóbria, como um templo grego.
Não se mostre na fábrica o suplício
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:
Porque a Beleza, gêmea da Verdade,
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.
Olavo Bilac
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelo de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare
- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
Manuel Bandeira
--------M-E-M-B-R-A-N-A-S-E-M-I-P-E-R-M-E-Á-V-E-L-------
A um Poeta
Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!
Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo que a imagem fique nua
Rica mas sóbria, como um templo grego.
Não se mostre na fábrica o suplício
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:
Porque a Beleza, gêmea da Verdade,
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.
Olavo Bilac
Poesia e ciência
Do fundo da inconsciência
Da alma sobriamente louca
Tirei poesia e ciência,
E não pouca
Maravilha do inconsciente!
Em sonho, sonhos criei.
E o mundo atônito sente
Como é belo o que lhe dei.
Fernando Pessoa
Da alma sobriamente louca
Tirei poesia e ciência,
E não pouca
Maravilha do inconsciente!
Em sonho, sonhos criei.
E o mundo atônito sente
Como é belo o que lhe dei.
Fernando Pessoa
As horas pela alameda
As horas pela alameda
Arrastam vestes de seda,
vestes de seda sonhada
Pela alameda alongada
Sob o azular do luar...
E ouve-se no ar a expirar -
A expirar mas nunca expira -
uma flauta que delira,
Que é mais a idéia de ouvi-la
Que ouvi-la quase tranqüila
Pelo ar, a ondear e a ir...
Silêncio a tremeluzir...
Fernando Pessoa
Arrastam vestes de seda,
vestes de seda sonhada
Pela alameda alongada
Sob o azular do luar...
E ouve-se no ar a expirar -
A expirar mas nunca expira -
uma flauta que delira,
Que é mais a idéia de ouvi-la
Que ouvi-la quase tranqüila
Pelo ar, a ondear e a ir...
Silêncio a tremeluzir...
Fernando Pessoa
Monday, July 18, 2005
Desencontrários
Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.
Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.
Paulo Leminsky
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.
Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.
Paulo Leminsky
Um bom poema
Um bom poema
leva anos
cinco anos jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto.
Paulo Leminsky
leva anos
cinco anos jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto.
Paulo Leminsky
Sunday, July 17, 2005
Razão de ser
Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
Preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
Paulo Leminsky
Escrevo porque preciso,
Preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
Paulo Leminsky
Saturday, July 16, 2005
O mínimo do máximo
Tempo lento,
espaço rápido,
quanto mais penso,
menos capto.
Se não pego isso
que me passa no íntimo,
importa muito?
Rapto o ritmo.
Espaçotempo ávido,
lento espaçodentro,
quando me aproximo,
simplesmente medesfaço,
apenas o mínimo
em matéria de máximo.
Paulo Leminsky
espaço rápido,
quanto mais penso,
menos capto.
Se não pego isso
que me passa no íntimo,
importa muito?
Rapto o ritmo.
Espaçotempo ávido,
lento espaçodentro,
quando me aproximo,
simplesmente medesfaço,
apenas o mínimo
em matéria de máximo.
Paulo Leminsky
Friday, July 15, 2005
A lição de poesia
Toda a manhã consumida
como um sol imóvel
diante da folha em branco:
princípio do mundo, lua nova.
Já não podias desenhar
sequer uma linha;
um nome, sequer uma flor
desabrochava no verão da mesa:
nem no meio dia iluminado,
cada dia comprado,
do papel, que pode aceitar,
contudo, qualquer mundo.
A noite inteira o poeta
em sua mesa, tentando
salvar da morte os monstros
germinados em seu tinteiro.
Monstros, bichos, fantasmas
de palavras, circulando,
urinando sobre o papel,
sujando-o com seu carvão.
Carvão de lápis, carvão
da idéia fixa, carvão
de emoção extinta, carvão
consumido nos sonhos.
A luta branca sobre o papel
que o poeta evita,
luta branca onde corre o sangue
de suas veias de água salgada.
A física do susto percebida
entre os gestos diários;
susto das coisas jamais pousadas
porém imóveis, naturezas vivas.
E as vinte palavras recolhidas
as águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.
Vinte palavras sempre as mesmas
de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade
menor que a do ar.
João Cabral de Melo Neto
como um sol imóvel
diante da folha em branco:
princípio do mundo, lua nova.
Já não podias desenhar
sequer uma linha;
um nome, sequer uma flor
desabrochava no verão da mesa:
nem no meio dia iluminado,
cada dia comprado,
do papel, que pode aceitar,
contudo, qualquer mundo.
A noite inteira o poeta
em sua mesa, tentando
salvar da morte os monstros
germinados em seu tinteiro.
Monstros, bichos, fantasmas
de palavras, circulando,
urinando sobre o papel,
sujando-o com seu carvão.
Carvão de lápis, carvão
da idéia fixa, carvão
de emoção extinta, carvão
consumido nos sonhos.
A luta branca sobre o papel
que o poeta evita,
luta branca onde corre o sangue
de suas veias de água salgada.
A física do susto percebida
entre os gestos diários;
susto das coisas jamais pousadas
porém imóveis, naturezas vivas.
E as vinte palavras recolhidas
as águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.
Vinte palavras sempre as mesmas
de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade
menor que a do ar.
João Cabral de Melo Neto
Infância
Meu pai montava à cavalo, ia para o
campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia
Eu sozinho, menino entre mangueiras
lia história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.
No meio-dia branco de luz
uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala
e nunca
se esqueçeu
chamava para o café.
Café preto, que nem a preta velha
café gostoso
café bom.
Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu... não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito
E dava um suspiro... que fundo!
Lá longe, meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.
E eu não sabia que minha história
Era mais bonita que a de Robinson Crusoé.
Carlos Drummond de Andrade
campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia
Eu sozinho, menino entre mangueiras
lia história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.
No meio-dia branco de luz
uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala
e nunca
se esqueçeu
chamava para o café.
Café preto, que nem a preta velha
café gostoso
café bom.
Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu... não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito
E dava um suspiro... que fundo!
Lá longe, meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.
E eu não sabia que minha história
Era mais bonita que a de Robinson Crusoé.
Carlos Drummond de Andrade
Thursday, July 14, 2005
Debruçado sobre o mistério
Não sou o primeiro a debruçar-me sobre o mistério.
Ovídio perscrutava as estações,
Leopardi tinha pacto com as estrelas.
Outros, deixando à parte os instrumentos
humildes e perplexos se renderam.
Não há como ao mistério decifrá-lo.
É próprio dos mistérios serem opacos.
Entrego o pasmo à sua sorte.
Passeio calmo em seus arcanos
aspiro aromas, vejo cores, toco formas
e me dissolvo extasiado nessa aura.
Affonso Romano de Sant'Anna
Ovídio perscrutava as estações,
Leopardi tinha pacto com as estrelas.
Outros, deixando à parte os instrumentos
humildes e perplexos se renderam.
Não há como ao mistério decifrá-lo.
É próprio dos mistérios serem opacos.
Entrego o pasmo à sua sorte.
Passeio calmo em seus arcanos
aspiro aromas, vejo cores, toco formas
e me dissolvo extasiado nessa aura.
Affonso Romano de Sant'Anna
Canção antiga
Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que falem como dois olhos.
Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.
Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.
Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.
Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.
Carlos Drummond de Andrade
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que falem como dois olhos.
Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.
Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.
Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.
Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.
Carlos Drummond de Andrade
Wednesday, July 13, 2005
A Long Time Ago, In a Galaxy Far, Far away ...
Quando vejo nas crônicas antigas
A descrição dos seres mais perfeitos,
E o belo a embelezar velhas cantigas
Em honra à dama e aos paladins eleitos,
No blasonar da formosura rara
Que em mãos, pés, lábios, olhos, face aflora,
Sinto que a musa antiga decantara
Mesmo a beleza que deténs agora.
Não passa tal louvor de profecia
Do nosso tempo, e já te prefigura;
Mas como só na mente é que te via,
Não pode o teu valor cantar à altura.
E hoje, que temos olhos para ver,
Verbo nos falta, para enaltecer.
William Shakespeare
A descrição dos seres mais perfeitos,
E o belo a embelezar velhas cantigas
Em honra à dama e aos paladins eleitos,
No blasonar da formosura rara
Que em mãos, pés, lábios, olhos, face aflora,
Sinto que a musa antiga decantara
Mesmo a beleza que deténs agora.
Não passa tal louvor de profecia
Do nosso tempo, e já te prefigura;
Mas como só na mente é que te via,
Não pode o teu valor cantar à altura.
E hoje, que temos olhos para ver,
Verbo nos falta, para enaltecer.
William Shakespeare
Tuesday, July 12, 2005
3 palavras: Máquina-do-Mundo, Sonhos e Montanha
A palavra mágica
Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.
Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.
Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra.
Carlos Drummond de Andrade
Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.
Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.
Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra.
Carlos Drummond de Andrade
Espaço Curto e Finito
Espaço Curto e Finito
Oculta consciência de não ser,
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças e ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe, um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que nesse espaço curvo vem de ti.
José Saramago
Oculta consciência de não ser,
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças e ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe, um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que nesse espaço curvo vem de ti.
José Saramago
Monday, July 11, 2005
No silêncio dos olhos
Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de ventos, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?
(José Saramago)
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de ventos, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?
(José Saramago)
Epílogos
Que falta nesta cidade? Verdade
Que mais por sua desonra? Honra
Falta mais que se lhe ponha? Vergonha
O demo a viver se exponha,
por mais que a fama a exalta
numa cidade onde falta
Verdade, Honra, Vergonha.
Quem a pôs nesse socrócio? Negócio
Quem causa tal perdição? Ambição
E o maior desta loucura? Usura
Notável desventura
de um povo nésci0, e sandeu,
que não sabe, que o perdeu
Negócio, ambição, usura.
(...)
A Câmara não acode? Não pode
Pois não tem todo o poder? Não quer
É que o governo a convence? Não vence
Quem haverá que tal pense,
Que uma Câmara tão nobre
por ver-se mísera e pobre
Não pode, não quer, não vence.
(Gregório de Matos Guerra)
Que mais por sua desonra? Honra
Falta mais que se lhe ponha? Vergonha
O demo a viver se exponha,
por mais que a fama a exalta
numa cidade onde falta
Verdade, Honra, Vergonha.
Quem a pôs nesse socrócio? Negócio
Quem causa tal perdição? Ambição
E o maior desta loucura? Usura
Notável desventura
de um povo nésci0, e sandeu,
que não sabe, que o perdeu
Negócio, ambição, usura.
(...)
A Câmara não acode? Não pode
Pois não tem todo o poder? Não quer
É que o governo a convence? Não vence
Quem haverá que tal pense,
Que uma Câmara tão nobre
por ver-se mísera e pobre
Não pode, não quer, não vence.
(Gregório de Matos Guerra)
Sunday, July 10, 2005
Acima de tudo
Da gota d'água de um carinho agreste
Geram-se os oceanos da Bondade.
O coração que é livre e bom reveste
Tudo d'encanto e simples majestade.
Ascender para a Luz é ser celeste,
Novos astros sentir na imensidade
Da alma e ficar nessa inconsútil veste
Da divina e serena claridade.
O que é consolador e o que é supremo
Cada alma encontra no caminho extremo,
Quando atinge às estrelas da pureza.
É apenas trazer o ser liberto
De tudo e transformar cada deserto
Num sonho virginal da Natureza!
Cruz & Souza
Geram-se os oceanos da Bondade.
O coração que é livre e bom reveste
Tudo d'encanto e simples majestade.
Ascender para a Luz é ser celeste,
Novos astros sentir na imensidade
Da alma e ficar nessa inconsútil veste
Da divina e serena claridade.
O que é consolador e o que é supremo
Cada alma encontra no caminho extremo,
Quando atinge às estrelas da pureza.
É apenas trazer o ser liberto
De tudo e transformar cada deserto
Num sonho virginal da Natureza!
Cruz & Souza
Saturday, July 09, 2005
Sorriso Interior
O ser que é ser e que jamais vacila
Nas guerras imortais entra sem susto,
Leva consigo esse brasão augusto
Do grande amor, da nobre fé tranqüila.
Os abismos carnais da triste argila
Ele os vence sem ânsias e sem custo...
Fica sereno num sorriso justo,
Enquanto tudo em derredor oscila.
Ondas interiores de grandeza
Dão-lhe essa glória em frente à Natureza,
Esse esplendor, todo esse largo eflúvio.
O ser que é ser transforma tudo em flores...
E para ironizar as próprias dores
Canta por entre as águas do Dilúvio!
(Cruz & Souza)
Nas guerras imortais entra sem susto,
Leva consigo esse brasão augusto
Do grande amor, da nobre fé tranqüila.
Os abismos carnais da triste argila
Ele os vence sem ânsias e sem custo...
Fica sereno num sorriso justo,
Enquanto tudo em derredor oscila.
Ondas interiores de grandeza
Dão-lhe essa glória em frente à Natureza,
Esse esplendor, todo esse largo eflúvio.
O ser que é ser transforma tudo em flores...
E para ironizar as próprias dores
Canta por entre as águas do Dilúvio!
(Cruz & Souza)
Sempre o Sonho
Para encantar os círculos da Vida,
É sempre tranquilo, sonhador, confiante,
Sempre trazer o coração radiante
Como um rio e rosais junto de ermida.
Beber na vinha celestial garrida
Das estrelas o vinho flamejante
E caminhar vitorioso e ovante
Como um deus, com a cabeça enflorescida.
Sorrir, amar para alargar os mundos
Do sentimento, e para ter profundos
Momentos de momentos soberanos.
Para sentir em torno à terra ondeando
Um sonho, sempre em sonho além rolando
Vagas e vagas de imortais oceanos.
Cruz & Souza
É sempre tranquilo, sonhador, confiante,
Sempre trazer o coração radiante
Como um rio e rosais junto de ermida.
Beber na vinha celestial garrida
Das estrelas o vinho flamejante
E caminhar vitorioso e ovante
Como um deus, com a cabeça enflorescida.
Sorrir, amar para alargar os mundos
Do sentimento, e para ter profundos
Momentos de momentos soberanos.
Para sentir em torno à terra ondeando
Um sonho, sempre em sonho além rolando
Vagas e vagas de imortais oceanos.
Cruz & Souza
Friday, July 08, 2005
Siderações
Para as estrelas de cristais gelados
As ânsias e os desejos vão subindo,
Galgando azuis e siderais noivados
De nuvens brancas a amplidão vestindo...
Num cortejo de cânticos alados
Os arcanjos, as cítaras ferindo,
Passam, das vestes nos troféus prateados,
As asas de ouro finamente abrindo...
Dos etéreos turíbulos de neve
Claro incenso aromal, límpido e leve,
Ondas nevoentas de Visões levanta...
E as ânsias e os desejos infinitos
Vão com os arcanjos formulando ritos
Da Eternidade que nos Astros canta...
Cruz & Souza
As ânsias e os desejos vão subindo,
Galgando azuis e siderais noivados
De nuvens brancas a amplidão vestindo...
Num cortejo de cânticos alados
Os arcanjos, as cítaras ferindo,
Passam, das vestes nos troféus prateados,
As asas de ouro finamente abrindo...
Dos etéreos turíbulos de neve
Claro incenso aromal, límpido e leve,
Ondas nevoentas de Visões levanta...
E as ânsias e os desejos infinitos
Vão com os arcanjos formulando ritos
Da Eternidade que nos Astros canta...
Cruz & Souza
Thursday, July 07, 2005
Ser
DESTE MODO ou daquele modo,
Conforme calha ou não calha,
Podendo às vezes dizer o que penso,
E outras vezes dizendo-o mal e com misturas,
Vou escrevendo os meus versos sem querer.
Como se escrever não fosse uma cousa feita de gestos,
Como se escrever fosse uma cousa que me acontecesse
Como dar-me o sol de fora.
Procuro dizer o que sinto
Sem pensar em que o sinto.
Procuro encostar as palavras à idéia
E não precisar dum corredor
Do pensamento para as palavras.
Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.
O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado
Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.
Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a unta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro,
Mas um animal humano que a Natureza produziu.
E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer como
um homem,
mas como quem sente a Natureza, e mais nada.
E assim escrevo, ora bem, ora mal,
Ora acertando com o que quero dizer, ora errando,
Caindo aqui, levantando-me acolá,
Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso.
Ainda assim, sou alguém.
Sou o descobridor da Natureza.
Sou o argonauta das sensações verdadeiras.
Trago ao Universo, um novo Universo
Porque trago ao Universo ele-próprio.
Isto sinto e isto escrevo
Perfeitamente sabedor e sem que não veja
Que são cinco horas do amanhecer
E que o sol, que ainda não mostrou a cabeça
Por cima do muro do horizonte,
Ainda assim já se lhe vêem as pontas dos dedos
Agarrando o cimo do muro
Do horizonte cheio de montes baixos.
Fernando Pessoa - Alberto Caeiro
Conforme calha ou não calha,
Podendo às vezes dizer o que penso,
E outras vezes dizendo-o mal e com misturas,
Vou escrevendo os meus versos sem querer.
Como se escrever não fosse uma cousa feita de gestos,
Como se escrever fosse uma cousa que me acontecesse
Como dar-me o sol de fora.
Procuro dizer o que sinto
Sem pensar em que o sinto.
Procuro encostar as palavras à idéia
E não precisar dum corredor
Do pensamento para as palavras.
Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.
O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado
Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.
Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a unta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro,
Mas um animal humano que a Natureza produziu.
E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer como
um homem,
mas como quem sente a Natureza, e mais nada.
E assim escrevo, ora bem, ora mal,
Ora acertando com o que quero dizer, ora errando,
Caindo aqui, levantando-me acolá,
Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso.
Ainda assim, sou alguém.
Sou o descobridor da Natureza.
Sou o argonauta das sensações verdadeiras.
Trago ao Universo, um novo Universo
Porque trago ao Universo ele-próprio.
Isto sinto e isto escrevo
Perfeitamente sabedor e sem que não veja
Que são cinco horas do amanhecer
E que o sol, que ainda não mostrou a cabeça
Por cima do muro do horizonte,
Ainda assim já se lhe vêem as pontas dos dedos
Agarrando o cimo do muro
Do horizonte cheio de montes baixos.
Fernando Pessoa - Alberto Caeiro
Wednesday, July 06, 2005
Rimas
Não me importo com as rimas. Raras vezes
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.
Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos expressão no meu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior
Olho e comovo-me,
Comovo-me quando a água corre quando o chão é inclinado,
E a minha poesia é natural como o levantar-se vento...
(Fernando Pessoa)
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.
Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos expressão no meu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior
Olho e comovo-me,
Comovo-me quando a água corre quando o chão é inclinado,
E a minha poesia é natural como o levantar-se vento...
(Fernando Pessoa)
Tuesday, July 05, 2005
Isto
Dizem que finjo ou minto
tudo que escrevo. Não
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!
Fernando Pessoa
tudo que escrevo. Não
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!
Fernando Pessoa
Monday, July 04, 2005
Para ser grande
PARA SER GRANDE, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
Fernando Pessoa (Ricardo Reis)
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
Fernando Pessoa (Ricardo Reis)
Sunday, July 03, 2005
Palavras e Paisagens
Há certas palavras pelas quais passo freqüentemente
sem lhes conhecer o sentido verdadeiro.
Nunca fui ao dicionário
conhecer as formas polifacéticas de seu ser.
São como pessoas que por mim passam
ou que freqüentam nossa paisagem
Não nos aprofundamos em conhecê-las.
Basta o colorido de suas vestes
e a sonoridade de seus nomes.
Não se pode esgotar o dicionário
ou amar completamente
- tudo o que encontramos.
(Affonso Romano de Sant'Anna)
sem lhes conhecer o sentido verdadeiro.
Nunca fui ao dicionário
conhecer as formas polifacéticas de seu ser.
São como pessoas que por mim passam
ou que freqüentam nossa paisagem
Não nos aprofundamos em conhecê-las.
Basta o colorido de suas vestes
e a sonoridade de seus nomes.
Não se pode esgotar o dicionário
ou amar completamente
- tudo o que encontramos.
(Affonso Romano de Sant'Anna)
Saturday, July 02, 2005
Iluminando
Que fulgurante a vida face ao entardecer.
Desfolho seus momentos numa verticalidade absurda.
Os gregos amavam o Sol
e os decadentistas lunares formas de viver.
Projeto uns nos outros
iluminando o escurecer.
A tarde tem sortilégios.
Estou maduro para ela.
Escrevo. Escrevo. Escrevo.
E algo se grava e se esclarece
no ato de escreviver.
(Affonso Romano de Sant'Anna)
Desfolho seus momentos numa verticalidade absurda.
Os gregos amavam o Sol
e os decadentistas lunares formas de viver.
Projeto uns nos outros
iluminando o escurecer.
A tarde tem sortilégios.
Estou maduro para ela.
Escrevo. Escrevo. Escrevo.
E algo se grava e se esclarece
no ato de escreviver.
(Affonso Romano de Sant'Anna)
Friday, July 01, 2005
Sutis, as palavras
Tenho que ficar atento às palavras que me anotam.
Limpar de novo os tímpanos. Sutis, elas ressoam
e se apagam sem alarde.
Se não as escrevo, as essenciais,
não terei como dar notícia de você em mim.
As palavras, com o tempo
tornam-se suavíssimas, de seda.
Há que recolhê-las
no casulo das tardes outonais.
Ouvir a única palavra, sem impurezas.
Não se trata de burilá-la, e sim surpreendê-la.
Palavras estão passando como pássaros invisíveis,
mas cantantes.
Tento segui-las,
não só com o olhos, mas pelo alarido
de suas penas no papel.
As palavras vêm em bandos.
Algumas pousam em ruínas,
saltam de galho em galho,
mostram e escondem sua face
e buscam outras páginas, bocas e quintais
fazendo pensar que é delas
o alarido que é meu.
(Affonso Romano de Sant'Anna)
Limpar de novo os tímpanos. Sutis, elas ressoam
e se apagam sem alarde.
Se não as escrevo, as essenciais,
não terei como dar notícia de você em mim.
As palavras, com o tempo
tornam-se suavíssimas, de seda.
Há que recolhê-las
no casulo das tardes outonais.
Ouvir a única palavra, sem impurezas.
Não se trata de burilá-la, e sim surpreendê-la.
Palavras estão passando como pássaros invisíveis,
mas cantantes.
Tento segui-las,
não só com o olhos, mas pelo alarido
de suas penas no papel.
As palavras vêm em bandos.
Algumas pousam em ruínas,
saltam de galho em galho,
mostram e escondem sua face
e buscam outras páginas, bocas e quintais
fazendo pensar que é delas
o alarido que é meu.
(Affonso Romano de Sant'Anna)
PROJETO DE FÉRIAS - UMA POESIA POR DIA
Título auto-explicativo né? Vamos ver se eu consigo postar no mínimo uma poesia por dia, hehe.
Tuesday, June 28, 2005
Fazer versos
Muitos nunca entenderão
o fazer versos. Acham um passatempo
e insensatez perversa.
Contemplo-os à noite, do terraço
que dá para a solidão de seus quartos.
Dormem todos. Mas há luzes acesas.
Devem ser poetas que desconheço
e me desconhecem, e alta noite reconstroem,
mudos, um diálogo de muitos,
como se nunca fossem morrer.
Os outros dormem. Dormem
imaginando, às vezes, como o artista há de ser.
O artista, apenas, arde o ser.
(Affonso Romano de Sant'Anna)
o fazer versos. Acham um passatempo
e insensatez perversa.
Contemplo-os à noite, do terraço
que dá para a solidão de seus quartos.
Dormem todos. Mas há luzes acesas.
Devem ser poetas que desconheço
e me desconhecem, e alta noite reconstroem,
mudos, um diálogo de muitos,
como se nunca fossem morrer.
Os outros dormem. Dormem
imaginando, às vezes, como o artista há de ser.
O artista, apenas, arde o ser.
(Affonso Romano de Sant'Anna)
Monday, June 27, 2005
Presente
O que te dar neste dia?
O que te daria eu ontem
quando não te conhecia?
E amanhã, o que darei
se hoje não te dei
o que devia?
O que te dou é apenas
sombra do que querias.
Dou-te prosa, e o desejo
era dar-te poesia.
(Affonso Romano de Sant'Anna)
O que te daria eu ontem
quando não te conhecia?
E amanhã, o que darei
se hoje não te dei
o que devia?
O que te dou é apenas
sombra do que querias.
Dou-te prosa, e o desejo
era dar-te poesia.
(Affonso Romano de Sant'Anna)
Sunday, June 26, 2005
O que será que Manuel Bandeira pensava ?
Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo
Quero apenas contar-te a minha ternura
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás
Eu te pudesse repor
- Eu soubesse repor -
No coração despedaçado
As mais puras alegrias de tua infância!
(Manuel Bandeira - Libertinagem)
Quero apenas contar-te a minha ternura
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás
Eu te pudesse repor
- Eu soubesse repor -
No coração despedaçado
As mais puras alegrias de tua infância!
(Manuel Bandeira - Libertinagem)
Wednesday, June 22, 2005
Flores têm cheiro de realidade
Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos.
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.
(Alberto Caeiro - Fernando Pessoa)
O rebanho é os meus pensamentos.
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.
(Alberto Caeiro - Fernando Pessoa)
O dia e a noite
Como hei de restaurar-me na bonança
Se órfão da graça do repouso vi-me,
Pois a opressão do dia a noite alcança,
Da noite o dia, e dia e noite oprime;
Que ambos, embora em natureza opostos,
Deram-se as mãos para me dar tortura:
Um dá-me a dura pena, outro desgostos,
Que este penar longe de ti mais dura.
Digo que és luz para agradar ao dia,
E, se há nuvens, que podes removê-las;
Louvo também da noite a tez sombria:
Douras o céu se não houver estrelas.
Mas cada dia, o dia a dor aumenta
E cada noite, a noite inda a acrescenta.
Shakespeare
Se órfão da graça do repouso vi-me,
Pois a opressão do dia a noite alcança,
Da noite o dia, e dia e noite oprime;
Que ambos, embora em natureza opostos,
Deram-se as mãos para me dar tortura:
Um dá-me a dura pena, outro desgostos,
Que este penar longe de ti mais dura.
Digo que és luz para agradar ao dia,
E, se há nuvens, que podes removê-las;
Louvo também da noite a tez sombria:
Douras o céu se não houver estrelas.
Mas cada dia, o dia a dor aumenta
E cada noite, a noite inda a acrescenta.
Shakespeare
Tuesday, June 21, 2005
Flores sem nome
Estou amando essas flores, sem lhes saber o nome.
Isto não é justo, nem suficiente.
Sei-lhes o perfume,
vejo pequenas abelhas que as circundam
e delas se alimentam
sem lhes indagar sequer o nome.
Inominadas,
como aprendê-las no poema?
Delas guardarei no tempo
certa cor, certo poema, certa forma,
como certas pessoas que por mim passam
- inalcançáveis -
embora deixassem nos meus olhos
o mesmo inominado aroma.
(Affonso Romano de Sant'Anna)
Isto não é justo, nem suficiente.
Sei-lhes o perfume,
vejo pequenas abelhas que as circundam
e delas se alimentam
sem lhes indagar sequer o nome.
Inominadas,
como aprendê-las no poema?
Delas guardarei no tempo
certa cor, certo poema, certa forma,
como certas pessoas que por mim passam
- inalcançáveis -
embora deixassem nos meus olhos
o mesmo inominado aroma.
(Affonso Romano de Sant'Anna)
Monday, June 20, 2005
Jornada
Lanço-me ao leito, exausto da fadiga,
Repousa o corpo ao fim da jornada;
Mas eis que a outra jornada a mente obriga
Quando é do corpo a obrigação passada.
A ti meu pensamento - na distância -
Em santa romaria então me leva,
E fico, as frouxas pálpebras em ânsia,
Olhando, como os cegos vêem na treva.
E a vista de minh'alma ali desvenda
Aos olhos sem visão tua figura,
Que igual a jóia erguida em noite horrenda,
Renova a velha face à noite escura.
Ai! que de dia o corpo, à noite a alma,
Por tua e minha culpa têm calma.
(William Shakespeare)
Repousa o corpo ao fim da jornada;
Mas eis que a outra jornada a mente obriga
Quando é do corpo a obrigação passada.
A ti meu pensamento - na distância -
Em santa romaria então me leva,
E fico, as frouxas pálpebras em ânsia,
Olhando, como os cegos vêem na treva.
E a vista de minh'alma ali desvenda
Aos olhos sem visão tua figura,
Que igual a jóia erguida em noite horrenda,
Renova a velha face à noite escura.
Ai! que de dia o corpo, à noite a alma,
Por tua e minha culpa têm calma.
(William Shakespeare)
Saturday, June 18, 2005
A Poesia perdida
Quantas vezes, alta noite,
a alma rota de insônias,
me fustigavas, poesia.
Eu, olho cerrado,
noturno feto, fingindo
não ser comigo que falavas.
Falavas, e eu disfarçava
(amanhã te beijo, escrevo, acaricio).
Exausta, te afastavas.
Exausto, adormecia.
No meio da noite
algo se perdia
Não era muito
- só poesia
(Affonso Romano de Sant'Anna)
a alma rota de insônias,
me fustigavas, poesia.
Eu, olho cerrado,
noturno feto, fingindo
não ser comigo que falavas.
Falavas, e eu disfarçava
(amanhã te beijo, escrevo, acaricio).
Exausta, te afastavas.
Exausto, adormecia.
No meio da noite
algo se perdia
Não era muito
- só poesia
(Affonso Romano de Sant'Anna)
Friday, June 17, 2005
Não é posível medir a posição e a velocidade do elétron simultâneamente
Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
Do que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.
Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso, quando pareço não concordar comigo,
Reparem bem para mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés -
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma.
(Fernando Pessoa - Alberto Caeiro)
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
Do que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.
Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso, quando pareço não concordar comigo,
Reparem bem para mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés -
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma.
(Fernando Pessoa - Alberto Caeiro)
Monday, June 13, 2005
Tempo, sonhos, sombras...
Ausente andei de ti na primavera
Quando o festivo Abril mais se atavia,
E em tudo um'alma juvenil pusera
Que até Saturno saltitava e ria.
Mas nem gorjeios d'aves, nem fragrância
de flores várias em matiz e odores,
Moveram-me a compor alegre estância
Ou a colher, do seio altivo, as flores.
Nem me tocou a palidez do lírio,
Nem celebrei o vermelhão da rosa;
Eram não mais que imagens de um empíreo
Calcado em ti, padrão de toda cousa.
Inverno pareceu-me aquela alfombra,
E me pus a brincar com tua sombra.
(William Shakespeare)
Quando o festivo Abril mais se atavia,
E em tudo um'alma juvenil pusera
Que até Saturno saltitava e ria.
Mas nem gorjeios d'aves, nem fragrância
de flores várias em matiz e odores,
Moveram-me a compor alegre estância
Ou a colher, do seio altivo, as flores.
Nem me tocou a palidez do lírio,
Nem celebrei o vermelhão da rosa;
Eram não mais que imagens de um empíreo
Calcado em ti, padrão de toda cousa.
Inverno pareceu-me aquela alfombra,
E me pus a brincar com tua sombra.
(William Shakespeare)
Saturday, June 11, 2005
Tempo imperfeito
Quando observo que tudo quanto cresce
Desfruta a perfeição de um só momento,
Que neste palco imenso se obedece
A secreta influição do firmamento;
Quando percebo que ao homem, como à planta,
Esmaga o mesmo céu que lhe deu glória,
Que se ergue em seiva e, no ápice, aquebranta
E um dia enfim se apaga da memória:
esse conceito da inconstante sina
Mais jovem faz-te ao meu olhar agora,
Quando o Tempo se alia com a Ruína
Para tornar em noite a tua aurora.
E crua guerra contra o Tempo enfrento,
Pois tudo que te toma eu te acrescento.
(William Shakespeare)
Desfruta a perfeição de um só momento,
Que neste palco imenso se obedece
A secreta influição do firmamento;
Quando percebo que ao homem, como à planta,
Esmaga o mesmo céu que lhe deu glória,
Que se ergue em seiva e, no ápice, aquebranta
E um dia enfim se apaga da memória:
esse conceito da inconstante sina
Mais jovem faz-te ao meu olhar agora,
Quando o Tempo se alia com a Ruína
Para tornar em noite a tua aurora.
E crua guerra contra o Tempo enfrento,
Pois tudo que te toma eu te acrescento.
(William Shakespeare)
Espelho e Fluxo de cristal
Minha alma é esse lago... (Charles Augustin De Sainte-Beuve)
Minha alma é esse lago em que o sol, que declina
Numa tarde outoniça e linda, arde, expirando:
a onda pouco freme, e nem a asa argentina,
Nem o longínquo remo o agita, resvalando.
Tudo descansa em paz, e o cristal transparente,
À noite, ao esfriar no vento enregelado,
Sem rugas, eco, sem lamentações plangentes,
Parece espelho feito aos pálidos enfados.
Mas não sentis, Senhora, em tal tranqüilidade,
No fluxo de cristal pelo próprio esquecido,
Nessa calma extensão de plena fixidade,
Seu gozo em vos ficar aos pés emudecido,
Em refletir em paz a bem-amada margem,
Em pintá-la mais pura, e sem se entremeter,
em nada em si perder da divinal imagem
Daquela cujo rastro está sempre a colher?
Minha alma é esse lago em que o sol, que declina
Numa tarde outoniça e linda, arde, expirando:
a onda pouco freme, e nem a asa argentina,
Nem o longínquo remo o agita, resvalando.
Tudo descansa em paz, e o cristal transparente,
À noite, ao esfriar no vento enregelado,
Sem rugas, eco, sem lamentações plangentes,
Parece espelho feito aos pálidos enfados.
Mas não sentis, Senhora, em tal tranqüilidade,
No fluxo de cristal pelo próprio esquecido,
Nessa calma extensão de plena fixidade,
Seu gozo em vos ficar aos pés emudecido,
Em refletir em paz a bem-amada margem,
Em pintá-la mais pura, e sem se entremeter,
em nada em si perder da divinal imagem
Daquela cujo rastro está sempre a colher?
Luar
Vossa alma é paisagem escolhida
Que encantam bergamascos com folia,
Laúde, dança e quase entristecida
Máscara, em fantasiosas fantasias.
No modo menor, cantam a harmonia
Do vitorioso amor, da azada vida,
Porém, não se convencem da alegria,
E é no luar a música envolvida,
No luar calmo, triste, mas formoso
Que dá sonhos aos pássaros das árvores,
E mais suspiros de êxtase aos grandiosos
Jatos d'água, elegantes, entre os mármores.
(Paul Verlaine)
Que encantam bergamascos com folia,
Laúde, dança e quase entristecida
Máscara, em fantasiosas fantasias.
No modo menor, cantam a harmonia
Do vitorioso amor, da azada vida,
Porém, não se convencem da alegria,
E é no luar a música envolvida,
No luar calmo, triste, mas formoso
Que dá sonhos aos pássaros das árvores,
E mais suspiros de êxtase aos grandiosos
Jatos d'água, elegantes, entre os mármores.
(Paul Verlaine)
Sunday, June 05, 2005
Onda do mar
A um ausente (Carlos Drummond de Andrade)
Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
E sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.
Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.
Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
E sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.
Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.
O mistério do olhar
Eu (Paulo Leminsky)
eu
quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora
quem está por fora
não segura
um olhar que demora
de dentro de meu centro
este poema me olha
eu
quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora
quem está por fora
não segura
um olhar que demora
de dentro de meu centro
este poema me olha
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